Todos nós temos certeza de nossa
salvação? Se sim, Deus te salvou do quê? Da condenação, ou seja, Deus te salvou
enviando Seu Filho para morrer em nosso lugar e sofresse a condenação que seria
minha e sua, no caso, a morte.
Agora que entendemos do que Deus nos
salvou, outra pergunta aparece: Deus te salvou para quê? Deus te salvou com um
propósito, para um fim. Deus não te salvou apenas por salvar, apenas para
preencher uma cota ou bater uma meta. Não, Ele te salvou para algo. E o que é
esse algo? A nossa vocação.
No versículo 26 Paulo começa dizendo “Irmãos,
considerem a vocação de vocês”. A palavra vocação, no grego, é klēsis
(κλῆσις), significa chamado, convocação ou um convite. No caso, um convite
divino para abraçar a salvação de Deus. Paulo nos pede para considerarmos, ou
seja, para dar uma atenção especial para isso.
Por que ele pede para darmos uma
atentada nisso? Ele continua no mesmo versículo 26: “Não foram chamados
muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre
nascimento”. A igreja de Corinto era uma prova viva de que a salvação não
depende de argumentos filosóficos e brilhantismo retórico. Grande parte da
igreja não fazia parte da elite de Corinto, porém, mesmo assim eles tinham a
tendência de serem orgulhosos e se vangloriavam de coisas que os deviam fazer
chorar. Paulo faz questão de lembra-los que Deus os chama não por causa daquilo
que eram, mas apesar do que eram. Eles não eram considerados sábios segundo a
carne, o que quer dizer que eles não eram da elite cultural. Não eram
poderosos, isto é, eles não eram articuladores do poder e nem detinham cargos
na cidade. E nem tinham nascido em berço de ouro, ou melhor, eles não eram da
aristocracia. Mas, apesar disso, Deus os chamou e os convenceu da verdade do
Evangelho.
Em seguida, Paulo relembra os crentes de
Corinto o motivo que Deus os chamara. “Pelo contrário, Deus escolheu as
coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas
do mundo para envergonhar as fortes” (v. 27). Grande parte da igreja de
Corinto pertencia à classe de pessoas que a elite considerava louca (iletrada e
intelectualmente incompetente). Eles também eram considerados fracos, no caso,
sem poder de influência.[1]
Mas Paulo acaba o argumento aqui? Claro
que não: “E Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e
aquelas que não são, para reduzir a nada as que são, a fim de que ninguém se
glorie na presença de Deus” (v. 28,29). Não se engane aqui com a palavra
“humilde” que em nosso cotidiano tem um sentido positivo, significando alguém
que não é arrogante. Aqui no texto, a palavra humilde é agenḗs (ἀγενής)
que significa algo desprezível, covarde e indigno. Ele também separa da palavra
desprezadas (exouthenéō (ἐξουθενέω)) que está no sentido de “sem
importância” e também aquelas que não são. Com que objetivo? Reduzir a nada as
que são. Como Hernandes Dias Lopes diz: Deus escolhe o tolo, o fraco, o humilde
e o desprezado para ressaltar o orgulho do mundo e a sua necessidade de graça.[2] Paulo fecha o argumento
com o versículo 29 falando “a fim de que ninguém se glorie na presença de
Deus”. Deus não permite que ninguém se vanglorie em Sua presença.
Até agora temos percebido algo na forma
como Deus trabalha. Muitas vezes Ele inverte a ordem das coisas. Mas também
percebemos que Deus não faz nada sem motivo. Tudo tem um objetivo. Os
versículos 27 a 29 deixam isso muito claro: Deus escolheu as coisas loucas para
envergonhar as sábias, escolheu as coisas fracas para envergonhar as fortes, as
coisas humildes e desprezadas para reduzir a nada as que são, a fim, ou seja,
com a finalidade de ninguém se gloriar em Sua presença. Então, concluímos nessa
parte que Deus não faz nada sem um propósito.
Agora, Paulo vai relembrar aos coríntios
da herança deles em Cristo.
“Mas vocês são dele, em Cristo Jesus, o
qual se tornou para nós, da parte de Deus, sabedoria, justiça, santificação e
redenção” (v. 30). A
salvação é uma obra exclusiva de Deus, pela Sua graça. Por isso, não podemos
nos gloriar em homens, mesmo que sejam Paulo, Pedro ou Apolo. Nós pertencemos a
Deus em Cristo Jesus. E esse Cristo Jesus se tornou para nós quatro coisas que
o texto lista para nós:
1.
Sabedoria.
A sabedoria que o mundo grego tanto admirava, que é sim importante, mas mal
interpretada por eles. Jesus é a nossa sabedoria. É a lente pela qual
enxergamos o mundo. Se não olharmos para a vida através das lentes de Jesus,
não entenderemos seu significado. Jesus nos revela Deus.[3]
2.
Justiça.
É a ação de Deus ao justificar pecadores. Justificação é um dos temas centrais
no cristianismo. É um ato exclusivo de Deus que se dá em nossa conversão. Cristo
imputa a nós Sua justiça. “Assim, também isso lhe foi atribuído para
justiça. E as palavras "lhe foi atribuído" foram escritas não somente
por causa dele, mas também por nossa causa, visto que a nós igualmente nos será
atribuído, a saber, a nós que cremos naquele que ressuscitou dentre os mortos a
Jesus, nosso Senhor, o qual foi entregue por causa das nossas transgressões e
ressuscitou para a nossa justificação” (Romanos 4:22-25). Somos passivos na
justificação, não temos participação. Somos considerados justos no tribunal de
Deus porque a justiça de Jesus é atribuída a nós. “Quem intentará acusação
contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica” (Romanos 8:33).
3.
Santificação.
É a ação de Deus que transforma pecadores em santos. O Espírito Santo que
habita em nós nos ajuda a fazer aquilo que não conseguiríamos fazer sozinhos.
Ter uma vida santa, ou seja, separada. Em Cristo, estamos posicionalmente
santos e você é transformado num processo de santificação. Aqui, ao contrário
da justificação que somos passivos, temos participação. Somos transformados de
glória em glória na Sua própria imagem (2 Coríntios 3:18).
4.
Redenção.
A palavra apolýtrōsis (ἀπολύτρωσις) significa uma libertação efetuada
pelo pagamento de um resgate. Cristo pagou um preço para te levar à Casa do
Pai.
“Para que, como está escrito,
"aquele que se gloria, glorie-se no Senhor" (v. 31). Paulo encerra o capítulo 1 citando
Jeremias 9:24. Essa citação confirma que a identidade do cristão está ligada
fundamentalmente com o Senhor Jesus Cristo, não com um mestre da igreja.[4] Lembrando de que eles
tinham disputas falando que pertenciam à Paulo, outros à Pedro etc. (v. 12).
Paulo então encerra seu argumento dizendo que, ao invés de gloriarem-se em
homens, gloriem-se no Senhor.
Paulo, em Gálatas, vai dizer o seguinte:
“Mas longe de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo,
pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu estou crucificado para o
mundo” (Gálatas 6:14).
Que possamos nos lembrar do porquê e
para que fomos chamados por Deus. Encerro com o mesmo versículo que comecei: “Irmãos,
considerem a vocação de vocês” (v. 26a).
[1] CARSON,
D.A. (Ed.). Bíblia de Estudo Thomas Nelson: Nova Versão Internacional. São
Paulo: Thomas Nelson Brasil. 2021, p. 2212.
[2]
LOPES, Hernandes Dias. ICoríntios: como resolver conflitos na igreja. São
Paulo: Hagnos, 2008, p. 30.
[3]
Idem, p. 31.
[4]
CARSON, D.A. (Ed.). Bíblia de Estudo Thomas Nelson: Nova Versão Internacional.
São Paulo: Thomas Nelson Brasil. 2021, p. 2212.

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