Os falsos profetas

 

No artigo de hoje, vamos discorrer os versículos 13 a 27 de Mateus 7. O contexto imediato da passagem é o Sermão do Monte (Mateus 5-7). Jesus abordou 21 temas nesse sermão:

1.     As bem-aventuranças

2.     Sal e luz

3.     Lei

4.     Ira

5.     Adultério

6.     Divórcio

7.     Juramentos

8.     Vingança

9.     Amor aos inimigos

10. Esmolas

11. Oração

12. Tesouros no céu

13. Luz do corpo

14. Os dois senhores

15. As preocupações

16. Julgamento

17. Encorajar a oração

18. A porta estreita

19. Os falsos profetas

20. Quem entra nos Reino dos céus

21. Os dois fundamentos

Quando Jesus entra no tema da porta estreita, Ele começa a falar também da porta larga, dando uma introdução aos falsos profetas que vão incentivar justamente a andarmos em caminhos espaçosos e entrar em portas largas.

“Entrem pela porta estreita! Porque larga é a porta e espaçoso é o caminho que conduz para a perdição, e são muitos os que entram por ela. Estreita é a porta e apertado é o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que o encontram” (v. 13,14)

Reparem que Jesus disse que muitos entram por essa porta larga, não são poucos. Ou seja, muitos serão enganados e convencidos que ter uma vida cristã é fácil. Porém, essa porta e esse caminho largo conduz à perdição (ἀπώλεια (apṓleia): significa destruição total, ruína). Jesus insiste que a porta e o caminho são apertados, isto é, é desafiador e desconfortável, por isso poucos são os que o encontram. Poucos estão determinados a andar em um caminho que a verdadeira recompensa será apenas no final, enquanto durante o trajeto será penoso. As pessoas preferem atalhos.

Em seguida, Jesus nos adverte sobre os falsos profetas (ψευδοπροφήτης (pseudoprophḗtēs): quem, agindo como um profeta divinamente inspirado, declara falsidades como se fossem profecias divinas).

“Cuidado com os falsos profetas, que se apresentam a vocês disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes” (v. 15)

Eles estarão em nosso meio, vestidos de ovelhas (vão falar, agir, interagir como ovelhas), mas por dentro serão lobos devoradores (λύκος (lýkos): pode significar lobo (animal) ou uma metáfora de homens cruéis, gananciosos e vorazes), ou seja, ladrões. Mas Cristo não nos deixa no escuro, ele dá a dica de como reconheceremos esses lobos em nosso meio.

“Pelos seus frutos vocês os conhecerão. Por acaso se colhem uvas de espinheiros ou figos de ervas daninhas? Assim, toda árvore boa produz frutos bons, porém a árvore má produz frutos maus. A árvore boa não pode produzir frutos maus,e a árvore má não pode produzir frutos bons. Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e jogada no fogo. Assim, pois, pelos seus frutos vocês os conhecerão.” (v. 16-20)

O falso profeta vai vir com linguajar envolvente, supostas revelações, porém, seu caminho é de destruição. Ele pode até acertar a “revelação”, mas o que ele ensina? Infelizmente, já presenciei vários casos que envolvem falsos profetas, mas vou citar dois.

Caso 1:

Certo sábado, eu estava em uma igreja e o pregador era de fora, um tal profeta que veio de Brasília. A pregação foi muito ruim, pois o tempo todo o tal profeta ficava se justificando, contando sua própria história e nada de pregar a Palavra. Até que chegou o momento em que ele disse (entre tantas besteiras) que, certa vez, ele pregou em um local onde ele entregou uma palavra profética baseado numa impressão dele, e (segundo as palavras dele) não foi algo que Deus havia mandado ele falar. Ao chegar em casa, Deus falou que, apesar de Ele não ter dado a ordem, Ele iria honrar a palavra do profeta por causa da ousadia dele.

Durante toda aquela semana eu estive meditando no livro de Jeremias e me lembrei o que Deus faz com profetas que falam aquilo que Deus não mandou dizer. No momento senti um temor dentro de mim. Por acaso, esse suposto profeta não tinha temor diante de Deus? Veja a reposta de Jeremias ao falso profeta Hananias:

“Então o profeta Jeremias disse ao profeta Hananias: Escute bem, Hananias: O Senhor não o enviou, mas você fez com que este povo confiasse em mentiras. Por isso, assim diz o Senhor: ‘Eis que eu o expulsarei da face da terra. Você morrerá ainda este ano, porque pregou rebeldia contra o Senhor.’ E o profeta Hananias morreu naquele mesmo ano, no sétimo mês. (Jeremias 28:15-17)

Depois da pregação, ele começou a trazer palavras proféticas para as pessoas. Nesse momento, não tive mais estômago. Levantei-me juntamente com minha esposa e alguns amigos e fomos embora.

Caso 2:

Em um dia de madrugada, liguei a televisão e estava passando o programa de um profeta e parei para assistir. Ele estava ao vivo com o número do whatsapp pedindo para as pessoas mandarem mensagem, sempre falando que era importante a pessoa salvar o número. Guardem bem esse detalhe: salvar o número. Ele falava que era para a pessoa mandar o nome e a frase “revelação do Espírito Santo”. Eu, atrevido que sou, mandei a mensagem. No programa, ele lia a mensagem da pessoa ao vivo e Deus supostamente dava uma revelação para ele sobre a pessoa. E caso você esteja se perguntando, não, ele não leu minha mensagem no programa. Porém, a história não acaba aí.

Dois dias depois, ele me mandou mensagem, um áudio juntamente com uma mensagem de texto. No áudio ele disse que Deus havia revelado para ele que alguém havia feito um trabalho de magia negra contra minha vida e que isso estava impedindo meus planos de funcionarem. Até que ele fala para eu fazer uma oferta de R$ 250,00 no pix ou depósito na conta que estavam na mensagem de texto, além de ele querer orar por mim pessoalmente. Ele disse que estaria na igreja dele no bairro do Brás em São Paulo e que eu deveria ir até ele e me apresentar dizendo “eis-me aqui”, que ele já saberia que era eu. Claro que não fiz oferta nenhuma e nem fui até ele. Ele estava em São Paulo e eu moro em Barretos, interior do estado, mais ou menos uns 450 km de distância.

No dia seguinte, ele me mandou mensagem novamente, falando que estava orando por mim (p.s.: em nenhum momento nos áudios ele cita o meu nome) e ele via um tapete vermelho com oferendas, que estavam maquinando contra minha vida e, para não perder o costume, falou da oferta e que era para eu ir até ele. Nesse momento eu pensei: esse cara está mandando mensagem por lista de transmissão no whatsapp. A lista de transmissão serve para você mandar a mesma mensagem para várias pessoas ao mesmo tempo. Só que, para funcionar, você tem que ter o contato da pessoa salvo e a pessoa tem que ter o seu contato salvo. Lembram que falei para guardarem a informação de que ele pediu no programa para salvar o contato dele? Pois é, aí está a chave da farsa. Exclui o contato do cidadão e adivinhem só? Nunca mais recebi mensagem dele. Ele estava mandando mensagens por lista de transmissão para centenas de pessoas com a mesma estória de magia negra, tapete vermelho etc. É ou não é um falso profeta? Imagina ele receber ofertas de 10 pessoas: ele receberia R$ 2.500,00 só com essa brincadeira.

Agora vocês entendem a seriedade disso?

Além do mais, o falso profeta também pode ser um instrumento de Deus para que Ele possa exercer juízo:

“Então o Senhor perguntou: ‘Quem enganará Acabe, para que vá e seja morto em Ramote-Gileade?’ E um dizia uma coisa, e outro dizia outra coisa. Então um espírito saiu, se apresentou diante do Senhor e disse: ‘Eu o enganarei.’ O Senhor perguntou: ‘Como?’ Ele respondeu: ‘Sairei e serei um espírito mentiroso na boca de todos os profetas do rei.’ Então o Senhor disse: ‘Você conseguirá enganá-lo. Vá e faça assim.’ E agora eis que o Senhor pôs esse espírito mentiroso na boca de todos estes seus profetas e o Senhor declarou que um mal vai lhe acontecer” (1 Reis 22:20-23)

Um alerta: o falso profeta só é seguido por falsos crentes. Vou desenvolver melhor esse assunto. Voltemos ao texto de Mateus 7:

“Nem todo o que me diz: ‘Senhor, Senhor!’ entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (v. 21)

Jesus parece mostrar o destino desses falsos profetas e de seus seguidores. Cristo explicita isso falando que só entra no Reino dos céus quem faz a vontade do Pai, ou seja, esses falsos profetas estão fora da vontade de Deus. Deus não os enviou e neles atuava um espírito de engano. Agora olhem isso: “Senhor, Senhor, nós não profetizamos em seu nome? E em seu nome não expulsamos demônios? E em seu nome não fizemos muitos milagres?” (v. 22). Eles profetizavam, eles expulsavam demônios, eles faziam milagres, mas Jesus não os conhecia. “Então lhes direi claramente: Eu nunca conheci vocês. Afastem-se de mim, vocês que praticam o mal.’” (v. 23).

Percebem como todos esses tópicos estão ligados como elos em correntes? Agora, para concluir, Jesus fala sobre os dois fundamentos, aquele que construiu na rocha e o que construiu na areia. Aqueles que seguem a Cristo e aqueles que seguem os falsos profetas.

Uma doutrina errada, uma heresia, uma distorção da Palavra de Deus traz um prejuízo gigantesco para a igreja, pois se acreditarmos nessa falsa doutrina, estamos ancorados na areia. Quem constrói sobre a areia da mentira está negando a Rocha da verdade.

“Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as praticaserá comparado a um homem prudente que construiu a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e bateram com força contra aquela casa, e ela não desabou, porque tinha sido construída sobre a rocha. E todo aquele que ouve estas minhas palavras e não as pratica será comparado a um homem insensato que construiu a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e bateram com força contra aquela casa, e ela desabou, sendo grande a sua ruína” (v. 24-27)

Ambas as casas passam por problemas: chuva, rios, ventos. Essas adversidades vêm sobre as duas casas, então estar alicerçado na Rocha não significa ausência de provações. A diferença está no alicerce: ela não caiu. Já a que estava construída sobre a areia desabou, sendo grande a sua ruína (v. 27).

Se temos uma Rocha segura em quem nós podemos nos apoiar, por que tentar nos apegarmos em areia movediça? Se temos um caminho seguro, por que tentar pegar um atalho duvidoso? Se nós temos a Palavra de Deus, inspirada e infalível, por que nos agarrarmos em palavras vazias? Se temos acesso direto ao Pai, por que nos apegarmos à falsos mensageiros e supostos mediadores? Se não tivéssemos essa Rocha, eu até poderia entender a confusão, mas nós temos! Segure-se em Cristo.

“Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido” (Rm 10:11)

Em Cristo,

Pb. Gustavo Hoft

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