O perigo de transformar Deus em um ídolo (Juízes 17)

Talvez o título desse artigo possa lhe soar estranho: como assim transformar Deus em um ídolo? Vamos ver isso com calma.

“Havia um homem da região montanhosa de Efraim cujo nome era Mica. Ele disse à sua mãe: — As mil e cem moedas de prata que lhe foram roubadas, e a respeito das quais a senhora me falou e proferiu maldições, eis que esse dinheiro está comigo; eu o peguei. Então a mãe lhe disse: — Que o Senhor o abençoe, meu filho!” (v. 1,2). O capítulo 17 de Juízes começa nos apresentando a família de Mica e já percebemos que Mica era um homem de caráter duvidoso. Ele rouba sua própria mãe e, com medo de uma maldição proferida pela mãe sobre quem a roubou, ele confessa seu roubo e devolve a prata para sua mãe. Eram 1.100 moedas de prata.

“Assim, ele devolveu as mil e cem moedas de prata à sua mãe, que disse: — De minha parte dedico esta prata ao Senhor Deus a favor de meu filho. Será usada para fazer uma imagem de escultura e uma de fundição. Por isso, agora eu devolvo esta prata a você” (v. 3).  Assim que ele devolve as moedas, sua mãe diz que ela dedicará essa prata ao Senhor Deus em favor do filho e que essa prata seria usada para fazer uma imagem de escultura e uma de fundição. Precisamos entender aqui que ela não manda fazer uma imagem de um outro deus, mas sim, o Senhor Deus de Israel. Portanto, não se trata da quebra do 1º mandamento, mas sim, a quebra do 2º mandamento:

“Não faça para você imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima no céu, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não adore essas coisas, nem preste culto a elas, porque eu, o Senhor, seu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam, mas faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos” (Êx 20:4-6).

Por que Deus faz essa proibição? Segundo Timothy Keller:

Por que Deus ordena tal coisa? Porque qualquer imagem esculpida ou representação de Deus revelaria automaticamente parte da natureza de Deus, mas ocultaria outra parte […] Se você fizesse um retrato de Deus e tentasse adorá-lo, ele mostraria um Deus sorridente amoroso ou impressionante e majestoso? O retrato não expressaria toda a extensão da glória de Deus e, portanto, sua visão de Deus seria distorcida. Adorar a Deus por meio de imagens revela um espírito interior que não quer se submeter a Deus exatamente como ele é, mas que deseja escolher os atributos para criar um Deus que nos seja agradável.[1]

Talvez você esteja se perguntando como uma família que, supostamente ama o Senhor e quer servi-lo, comete um erro grotesco desses. Como essa família desconhecia o beabá do povo de Israel? A resposta está alguns capítulos anteriores:

“Toda aquela geração também morreu e foi reunida aos seus pais. E, depois dela, se levantou uma nova geração, que não conhecia o Senhor, nem as obras que ele havia feito por Israel” (Jz 2:10)

Após a morte de Josué e de toda aquela geração, se levantou uma geração que não conhecia a Deus e isso vai se perpetuando em todo o livro de Juízes. O povo faz o mal, Deus levanta o juízo sobre o povo, que se arrepende e busca o Senhor e o Senhor levanta alguém para os livrar. Logo o povo se esquece, e volta a fazer as mesmas coisas, o que provoca a ira do Senhor que traz o juízo, o povo se arrepende etc., ou seja, é quase um loop eterno, até que chegamos no capítulo 17.

“Porém o filho devolveu a prata à sua mãe, que pegou duzentas moedas de prata e as deu a um ourives, o qual fez delas uma imagem de escultura e uma de fundição. E a imagem ficou na casa de Mica” (v. 4). Mica devolve a prata à mãe, que pega 200 moedas de prata e entrega ao ourives. Mas, espera um momento. Quantas moedas eram? 1.100. Ela não tinha dedicado toda a prata ao Senhor? Sim. Então por que ela só entrega 200? Isso não nos lembra um casal em Atos 5, no caso de Ananias e Safira?

“E, assim, este homem, Mica, veio a ter um santuário. Fez uma estola sacerdotal, alguns ídolos do lar, e consagrou um de seus filhos para ser o sacerdote. Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada um fazia o que achava mais certo” (v. 5,6). Mica constrói um santuário, mesmo Deus falando que era para adorá-lo no Tabernáculo. Ele coloca seu filho como sacerdote, mesmo não sendo da tribo de Levi. E por que ele faz isso? Porque “cada um fazia o que achava mais certo” (v. 6). Talvez a intenção de Mica fosse boa, mas sinceridade não é sinal de estar certo.

“Havia um jovem de Belém de Judá, da tribo de Judá, que era levita e estrangeiro naquele lugar. Esse homem partiu da cidade de Belém de Judá em busca de outro lugar para morar. E assim, seguindo o seu caminho, chegou à região montanhosa de Efraim, até a casa de Mica. E Mica lhe perguntou: — De onde você vem? Ele respondeu: — Sou levita de Belém de Judá e estou procurando um lugar para morar. Então Mica disse: — Fique comigo, como meu conselheiro e sacerdote. Eu lhe darei dez moedas de prata por ano, a roupa e o sustento. O levita entrou e consentiu em ficar com aquele homem. E o jovem era para ele como um de seus filhos. Mica consagrou o jovem levita, que passou a ser o seu sacerdote. E o jovem ficou na casa de Mica” (v. 7-12). Aparece em cena em jovem levita que ia passando naquela região procurando um lugar para morar. Mica lhe oferece o cargo de sacerdote que era de seu filho, o levita aceita, e agora ele tem um levita “oficial” como sacerdote. E qual foi a conclusão de Mica sobre isso?

“Então Mica disse: — Agora sei que o Senhor me fará bem, porque tenho um levita como sacerdote” (v. 13). Mica tinha certeza que Deus o abençoaria, afinal de contas, agora ele tinha um produto oficial, não uma cópia pirata do sacerdócio.

Acabamos de ver no capítulo 17 o que acontece quando transformamos Deus em um ídolo. Citando novamente Keller:

Temos de ter um Deus que se amolde às sensibilidades de nossa cultura. Isso significa que nós, tal como a família de Mica, estamos remodelando Deus para que ele se encaixe em nosso coração e em nossa sociedade em vez de permitir que ele remodele nosso coração e nossa sociedade.[2]

Não é Deus que tem que se moldar a nós. Nós que temos que nos moldar à Ele. Deus não é nosso ídolo, Ele é o Senhor e, sendo Senhor, Ele detém o senhorio. Assim como a família de Mica, nós tentamos adorar a Deus do nosso jeito, segundo aquilo que achamos correto. Não estamos tão distantes assim dessa família. Quantas vezes tentamos remodelar Deus? Quantas vezes criamos um “Deus” segundo a nossa imagem e conforme a nossa semelhança?

Que nós, como igreja de Deus, possamos nos render ao Seu senhorio, mesmo que isso signifique abrir mão de certas coisas. O próprio Jesus nos disse: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21).

Amamos ao Senhor? Sim. Então guardemos os seus mandamentos. Não podemos fazer do nosso jeito, mesmo que a intenção seja boa. Que possamos meditar nisso e entender que não podemos confiar em nosso coração, que é enganoso (Jr 17:9).


[1] KELLER, Timothy. Juízes para você. São Paulo, SP: Vida Nova, 2019, p. 198 [Kindle].

[2] Idem, p. 199 [Kindle].

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